A cidadania do aplauso I

Por Leonor Bianchi

Findadas as festas de 20 anos de Rio das Ostras, voltamos à realidade. E que realidade o risotrense encara hoje? Que cenário se desvela nesta cidade linda, de natureza belíssima, de com quase 100 mil habitantes em um ano eleitoral? Vivemos a falácia de que Rio das Ostras é numa cidade pacificada, sem violência, onde a saúde e a educação funcionam, onde as pessoas têm emprego e expectativa de vida, onde a política pública da jovem cidade é feita de forma participativa, onde todos são felizes e vão à festa para juntos serem mais felizes e aparecerem sorrindo juntos nas galerias de fotografias (seriam colunas sociais?) da imprensa local.

Diria que para além do conceito de sociedade espetacular, ou sociedade do espetáculo, inserimo-nos, brasileiros, riostrenses, na sociedade do aplauso. Uma sociedade alienada no termo mais chulo que este possa vir a ter, onde os indivíduos não só não participam de absolutamente nada que envolva as decisões de escolha sobre sua vida, a de sua comunidade mais próxima, como tudo o que esse indivíduo conhece são os momentos de lazer e prazer. Uma sociedade afirmada sobre os pilares da cultura descartável, da cultura da promoção (da promoção individual), na qual quem tem mais poder são as celebridades, pois estas ganham destaque na TV, o grande poder político no Brasil. Hoje não só a TV exerce esse poder uma vez que nos surpreendemos com as possibilidades de convencimento para a venda através das redes sociais… estamos era das mídias digitais. A TV continua sendo o meio de maior penetração nas massas, e seu conteúdo (TV aberta) é cada vez mais vulgar, manipulador, e dominado por forças políticas.

Sentir prazer é melhor do que sentir angústia

Se eu fosse da área médica certamente saberia dizer agora como se dão esses processos bioquímicos no organismo humano para argumentar de maneira mais clara o que quero dizer. Além da endorfina, muitas outras enzimas são produzidas no organismo do ser humano no momento da festa, do delírio, do êxtase.

Desde a Grécia Arcaica tomamos pileques homéricos (naquele tempo vinho… hoje o brasileiro proletário bebe cachaça e aos domingos se dá ao luxo de beber uma cervejinha). Era e é necessário (também) ao indivíduo estar entorpecido para suportar a realidade, as chagas, as penas legais, a própria lei, a si mesmo e sua natureza.

Sob a luz da psicologia junguiana os arquétipos do homem, os comportamentos arquetípicos são a base para a compreendermos a narrativa, a trajetória do homem ao longo da história da humanidade, seja no mundo ocidental ou oriental. Mas, também, a elaboração dos arquétipos, sua ‘evolução’ para um outro arquétipo ‘mais evoluído espiritualmente’, socialmente seria o grande desenlace do mistério da vida. Ao indivíduo moderno sobrou o rito à inércia mental e as festas como sendo sua única forma de interagir com o meio ambiente, com outros indivíduos, com os animais, com sigo mesmo e com o divino. A questão é que o indivíduo moderno apenas quer ritualizar, ritualizar, ritualizar. E seus mitos são as celebridades da novela, os cantores sertanejos, os missionários religiosos e os políticos que apadrinham (estes teriam o mesmo status da celebridade na TV dado o seu poder na hierarquia social do grupo).

Não se trata mais nem de se embriagar numa parúsia dionisíaca tampouco de reatualizar um mito cosmogônico. Festeja-se o compartilhamento do viver por viver, só. Sem mais questionamentos segue o povo brasileiro, e nessa leva, os riostrenses.

Mas… será que viver ‘éter na mente’ com a sensação de prazer não seria o sinal de um quadro de esquizofrenia social? Na sociedade do aplauso as pessoas negam-se a admitir suas realidades, não enfrentam suas próprias problemáticas e cada vez mais vivem num mundo fantástico; o mundo do futebol, das novelas, do cinema. Vivem (n)um simulacro. Sobre o teatro… para que confrontar-se-iam esses indivíduos com o teatro? Para se odiarem (risos irônicos…)?

A sociedade riostrense precisa estar muito alerta sobre o que é noticiado na imprensa local, sobretudo sobre essa perspectiva da sociedade do aplauso. O último editorial do jornal do governo, o Resga… mostra que tudo saiu perfeito na festa de aniversário da cidade, que se o governo que está em seu último ano de mandato trouxe para Rio das Ostras artistas de renome internacional não é para as pessoas criticarem e sim, aplaudirem, já que se fossem estes, artistas menos conhecidos na mídia, haveria muito mais insatisfação. E assim, joga para o cidadão, o leitor um debate sobre o nível dos artistas da festa da cidade como se fosse este o principal tema a ser tratado por uma imprensa que se quer legítima e respeitada.

É claro que precisamos sim discutir a festa de aniversário de 20 anos de Rio das Ostras, mas sobre o prisma dos gastos públicos, não pormenorizando se queremos estar inseridos ainda na escolha dos artistas… se queremos ver cantores sertanejos ou se queremos jazz e blues goela abaixo. Contudo, antes de qualquer coisa, precisamos colocar em pauta o que essa festa significou e o que ela deixou de herança para o riostrense, para o comerciante local, para a economia da cidade.

Não fosse o histórico de superfaturamento de eventos na cidade – o que vivemos novamente este ano com a festa dos 20 anos de Rio das Ostras -, moradores e trabalhadores enfrentaram todas as consequências de uma cidade sem governança e sem infraestrutura. Rio das Ostras recebeu mais que o dobro de sua população durante os dias da festa da cidade, durante o feriado de Semana Santa, por exemplo, e ainda, os candidatos ao sexto concurso público da prefeitura. Sem estrutura, os visitantes e moradores assistiram a ineficiência deste governo, que, como disse o referente tabloide local, está saindo este ano do executivo. Está saindo e está deixando o que para os cidadãos riostrenses?

Deixa a notícia de que, no meio da festa toda, outra farra muito maior foi anunciada, mas esta não pelas páginas do tal jornal semanal de Rio das Ostras. Foram criadas quatro secretarias de governo no quadro da prefeitura, cujas mesmas irão demandar cerca de R$ 700 mil apenas em folha de pagamento à prefeitura no orçamento 2012. Por que será que sobre isso o jornal Resga… não fala?

Cidades feitas para serem comercializadas não estarão nunca voltadas para as causas sociais

Rio das Ostras tem características de uma cidade média. E qual a principal característica das cidades médias no Brasil, ou melhor, das capitais e cidades de economia emergentes brasileiras? Sua transformação em uma ‘cidade empresa’. E o que seria uma ‘cidade empresa’ e como isso funciona? Funcionada da forma como estamos vendo agora, por exemplo, nesse escândalo que envolve o governo do Estado do Rio de Janeiro com as empreiteiras Delta, Andade Gutierez, Odebrecht.

O poder público que gerencia a política de Rio das Ostras é uma agência de negócios voltada para os grandes interesses do capital e o cidadão é o último a ser comunicado das decisões neste cenário.

Nas ‘cidades-empresa’, prolifera-se a cidadania do aplauso: o indivíduo escolhe apenas momentos de prazer para se ‘unir’ e expressar sua cidadania, seu patriotismo, seu sentimento de pertencimento social, de ator social. Incapacitado de inserir-se amplamente nos ambientes onde os interesses políticos e sociais são discutidos, orbitam em torno destes e passam a aceitar naturalmente sua exclusão efetiva no âmbito dos debates de interesse público e coletivo. O indivíduo abre mão de exercer sua escolha, de se organizar e aprender a debater sua própria condição humana em sociedade.

Estamos vivendo um mundo de fantasia em Rio das Ostras, cidade onde já foram assassinados o primeiro prefeito, um vereador, um jornalista, um padre. Temos um número elevado de homicídios na cidade, não contamos com infraestrutura das polícias civil e militar e ainda assim, apoiamos a maneira como o modelo de segurança pública do Estado está sendo implantado na vizinha Macaé.

Não sou contra a implementação deste modelo de segurança, afinal ele propõe a ocupação para a pacificação, mas lembremos que precisamos estar muito atentos quando a palavra pacificação é colocada em contexto. Precisa-se estar muito quando atento caso ela vinha seguida de outra palavra: ocupação. Mas ainda que semanticamente estejamos diante de um ‘conceito’ paradoxal (o que não é paradoxal? A História é totalmente paradoxal!), insistimos no modelo padrão implantado pelo estado. O problema não são as ocupações das comunidades comandadas pelo tráfico, mas sim as milícias que se inserem nesses modelos de ocupação, que negociam diretamente com esses grupos. Sabemos que o tráfico não disputa cargos governamentais, mas a milícia sim. No meu entendimento este seria um dos maiores problemas do modelo de segurança pública pacificadora do governo Sérgio Cabral.

Voltando à sociedade do aplauso, precisamos atentar para que cidade queremos, mas precisamos saber anteriormente em qual cidade vivemos, qual sua história política.

Hoje em Rio das Ostras não sabemos ainda os nomes dos candidatos ao governo municipal, ainda que estejamos a poucos meses das eleições de outubro. Essa mesma imprensa que vende festas e comemorações não cita as denúncias graves que envolvem a administração do atual prefeito, nunca comentou, mesmo que de passagem, as mazelas deixadas à cidade pelo ex-prefeito, nem cita o que de real há por traz deste mistério que envolve o silenciamento dos nomes quem podem vir a concorrer este ano ao governo de Rio das Ostras. Apenas especulações e jogadas de marketing de esquina nada estratégicas sobre as benfeitorias do atual prefeito são publicadas em notinhas entre os releases da Secom da PMRO.

Não há crise interna na política riostrense, não há gente resmungando pelo leito derramado nos últimos quatro, oito, doze, dezesseis anos. A cidade continua nas mãos de um mesmo grupo político e a imprensa continua tentando enganar o cidadão que vota na cidade, que vive na cidade, que trabalha na cidade, que lê os jornais da cidade.

O cenário é dos mais inéditos na história da política regional se admitirmos o mais coerente, ou seja, não teremos uma disputa eleitoral em Rio das Ostras.

Leia e reflita sobre o conteúdo dos jornais de Rio das Ostras.

O Observatório da Imprensa colabora nesta análise. Vamos reinterpretar esse enunciado noticiado pelos jornais locais?

Conto com você nessa polifonia.


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